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1º DE MAIO E O FUTURO DO TRABALHO.::
1º de Maio
FATOS QUE MARCARAM A LUTA SINDICAL AO LONGO DOS ANOS NO BRASIL E NO MUNDO
Convenção 158 e as relações trabalhistas
FST
CONTRIBUIÇÃO SINDICAL 2008
PREVIDENCIA1º DE MAIO E O FUTURO DO TRABALHO.::
1º DE MAIO E O FUTURO DO TRABALHO.::
Délio Mendes
Discuta-se, neste maio de agora, o outro mundo do trabalho. Ou melhor, discuta-se, sobretudo, a possibilidade de transpor a centralidade de um paradigma em transformação. Transformação construída em função da capacidade humana de inventar, que inventa agora um mundo com necessidade de muito menos trabalho. O dia 1 de maio e as suas representações apontam na direção de lutas que tornaram mais amenas as vidas dos trabalhadores, membros de uma sociedade industrial que fez do gênero humano seres portadores de força de trabalho. E se assim o fez, reduziu os seres humanos à mais limitada de suas potencialidades, colocando-os presos a um paradigma que os impede de ir mais além, ou seja, os impede de realizarem-se seres humanos. Trabalhadores, enquanto seres portadores de força de trabalho, apresentam-se para a sociedade capitalista como mercadorias dotadas de valor de uso e de valor de troca, com a especificidade de serem mercadorias que têm a capacidade de criar valor. Desde esta perspectiva, a forma mais importante de luta do trabalho no mundo capitalista, a luta de classes, decorre da compreensão do papel-mercadoria que o mesmo exerce na sociedade, e da sua organização enquanto portador de valor e, por conseqüência, do permanente enfrentamento com a classe dominante. Afora isto, o portador da força de trabalho só ganha, ao longo da evolução da sociedade das mercadorias, a fadiga e o esgotamento decorrentes do esforço desenvolvido no sentido da acumulação do capital.
E se assim vem acontecendo no seio desta sociedade capitalista, este processo não é fatal, ou melhor, não está escrito em nenhum pergaminho sagrado e imutável. E se assim o é, a inteligência do ser humano vem produzindo uma tecnologia que poupa trabalho, aumentando a COC, Composição Orgânica do Capital, permitindo uma liberação no trabalho de produção e reprodução dos seres humanos, ofertando, à sociedade em seu conjunto, um maior número de horas a serem dedicadas ao ócio, que podem e devem ser, muitas vezes (mas não todas), produtivas. “De uma maneira geral, o trabalho tende a se converter em uma força de produção secundária face à potência, à automação e à complexidade dos equipamentos. São cada vez mais escassos os empregos em que as noções de esforço e rendimento individual conservam um sentido, em que a quantidade e a qualidade dos produtos dependem da aplicação dos trabalhadores e que o orgulho do produto bem feito possa ser uma fonte de identidade social e pessoal”.[1] Gorz tem razão, as transformações ocorridas no final do milênio passado, abrem as portas do atual milênio para a possibilidade da construção de uma sociedade com muito mais tempo livre, dedicada ao pensar formas de realização da vida cotidiana com maior dosagem de satisfação e de felicidade, onde mulheres e homens solidariamente se relacionem com prazer.
As transformações no mundo do trabalho e, por conseqüência, no mundo relacional são tão aceleradas que os próprios especialistas estão perplexos diante da velocidade deste processo. Para alguém que vivia no início do século XX, seria totalmente fora de cogitações que ao final deste mesmo século as transformações fossem tão acentuadas que cerca de 5% da população seria responsável pela totalidade da produção agrícola, que a maior parte detentora de empregos trabalharia no setor serviços, enquanto 20% estariam no setor informal, e que os descendentes dos trabalhadores, jovens em pleno vigor da sua força de trabalho, não encontrariam ocupações no mercado, não por serem incapazes, e sim porque não existem postos de trabalho que os absorvam.[2] Dito de outra forma, é necessário que se assuma politicamente que o trabalho tende a deixar de ser a centralidade e o paradigma de uma sociedade cada vez mais centrada no ócio. É preciso ter clareza que “o trabalho não representa mais a categoria que explica o papel dos indivíduos e da coletividade.”[3]
Sem embargo, esta é uma postura sobretudo política, na medida em que desvenda a questão central da sociedade do terceiro milênio, e encaminha as lutas sociais na direção de encontrar formas de distribuição da riqueza fora dos limites do emprego e do trabalho. Melhor dizendo, repartir o trabalho existente para que trabalhe um maior número de pessoas por menor tempo e, ao mesmo tempo, criar formas de distribuição de riqueza fora dos paradigmas tradicionais, abre a perspectiva para que a sociedade passe a discutir realmente o seu futuro, e não se perca na discussão de uma sociedade de trabalho que já se vai tardiamente, desde que sempre representou uma forma muito bem engendrada de exploração do homem pelo homem. Chega-se, enfim, à possibilidade de construir-se um mundo sem o trabalho alienando.
Desde esta realidade que se põe inexoravelmente, as novas tecnologias prometem substituir a própria mente humana, colocando máquinas inteligentes no lugar de seres humanos desempenhando as mais diferentes tarefas. Este fato concorre para que o batalhão de desempregados e subempregados aumente no mundo inteiro, particularmente no mundo desenvolvido, onde não se convive com naturalidade diante das situações características do desemprego e do subemprego. Deste modo, produz-se uma nova lógica, ou melhor, uma lógica de novo tipo que não passa, necessariamente, pelo paradigma do trabalho.
Sem embargo, neste outro mundo, do lado de cá do desenvolvimento, estudiosos, em sua maioria equivocados, falam deste problema como algo que não diz respeito às nossas sociedades. Melhor dizendo, afirmam que este é um problema do primeiro mundo, nós outros, muito pelo contrário, devemos produzir cada vez mais postos de trabalho para ocupar os nossos sem trabalho. Como se isto fosse possível. Como se a nova tecnologia não houvesse se globalizado e chegado a todos os recantos da humanidade. Como se as nossas vontades de produzir postos de trabalho se concretizasse por obra e graça de nossos esforços. Que pena, ou melhor, felizmente o mundo também entre nós vai para o outro lado, para o lado do progresso e do ócio. Cabe aqui, mais que em qualquer outro espaço do mundo globalizado, falar sobre a sociedade do ócio, do prazer e da felicidade. Da sociedade dos mínimos éticos, onde todos, independentemente de trabalharem ou não, devem ter acesso ao indispensável a viver condignamente.
Desde esta constatação, Marx estava equivocado em falar na sepultura do capitalismo como conseqüência da substituição de trabalho vivo por trabalho morto, fato que levaria à diminuição do mercado de trabalho e, por conseqüência, do consumo. Os que consumiam, segundo Marx, eram os mesmos que produziam. O capitalismo está para além da apreensão marxista, já que tem conseguido destruir e engendrar uma diversidade de formas de acumulação que tornam possível a sobrevivência do capital enquanto relação social de exploração. A emergência do domínio do capital financeiro, a produção e reprodução do dinheiro por fora da mercadoria, abre perspectivas para a criação de um número de consumidores que não são produzidos pelo mundo do trabalho, mas por um outro mundo, o mundo da especulação. Assim, este capital de mil feições e de mil traçadas linhas cria formas de realização das suas mercadorias por fora da própria produção de mercadorias. Melhor, por dentro da produção de uma mercadoria que deixa de ser, como Marx afirmava, apenas o equivalente geral, para ser e se realizar como mercadoria natural, portadora de valor de uso e valor de troca. A mercadoria dinheiro, que só expressava valor nas outras mercadorias, passa por uma nova etapa, a da sua solidificação enquanto mercadoria propriamente dita.[4]
A história não vai perdoar os que não conseguirem ver ao fundo as transformações. Enquanto o dinheiro se transforma em mercadoria propriamente dita, o trabalho diminui sua importância enquanto mercadoria produtora de todas as mercadorias. A produção se baseia no trabalho morto, e este morto produz mercadorias, produzindo também os novos mortos produtores das novas mercadorias. Este novo mundo é o mundo dos espectros. É o mundo do trabalho morto e, por conseqüência, da morte da maioria dos trabalhadores. O fantasma que ronda os lares dos trabalhadores de todo o mundo é o fantasma do trabalho morto. Contra as resultantes perversas da ação deste bom morto só existe a política de todos os segmentos sociais para construir uma sociedade radicalmente democrática, onde a distribuição da riqueza e a produção de satisfação passem ao largo do trabalho fadigoso e alienante. E assim, mais do que sendo, o futuro do dia do trabalho é ser o dia do ócio. Ou melhor, o dia do prazer e da felicidade. Felicidade ao alcance de todos os vivos. A história realiza a fábula do carnaval. O morto carrega o vivo. O trabalho morto carrega todos os vivos da sociedade do ócio.
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[1] GORZ, Andre (1995) Metamorfosis del trabajo, Editorial Sistema, Madrid, p.290
[2] FINKEL, Lucila (1995) La organización del trabajo, Pirámide, Madrid, p. 413
[3] MASI, Domenico (2001), A economia do ócio, Sextante, Rio de Janeiro, p.12
[4] Toda esta perspectiva argumental toma como base o Capítulo I do Livro I, Volume I de o Capital de Karl Marx.
MARX, Karl (?} O Capital, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, p.41
fonte: site Fundação Joaquim Nabuco-observa nordeste
